quarta-feira, julho 27, 2011

“Você está se perguntando agora, o que fazer, agora você sabe que é o fim. Você está se perguntando como, você pagará, pela forma que se comportou...”


A vida não anda fácil nesses tempos, meu amigo. Tem dias que me atrevo a dizer: são foda de suportar! Mas, depois vem a calmaria e o soluço preso dos outros dias. São dias afins, quietos; que ganham vida com o movimento da caneta e dos meus pensamentos... Ah, pensamentos! Esses não param e vivem por duas ou mais vidas.

Quase não escrevo mais aqui e também não é minha intenção; ganhei um moleskine e dele cuidarei melhor que esse blog.

NÃO SE MATE


Carlos, sossegue, o amor
é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe
o que será.

Inútil você resistir
ou mesmo suicidar-se.
Não se mate, oh não se mate,
reserve-se todo para
as bodas que ninguém sabe
quando virão,
se é que virão.

O amor, Carlos, você telúrico,
a noite passou em você,
e os recalques se sublimando,
lá dentro um barulho inefável,
rezas,
vitrolas,
santos que se persignam,
anúncios do melhor sabão,
barulho que ninguém sabe
de quê,
pra quê.

Entretanto você caminha
melancólico e vertical.
Você é a palmeira, você é o grito
que ninguém ouviu no teatro
e as luzes todas se apagam.
O amor no escuro, não, no claro,
é sempre triste, meu filho, Carlos,
mas não diga nada a ninguém, ninguém sabe nem saberá.

Carlos Drummond de Andrade

sábado, julho 02, 2011

Mas nas águas tranqüilas só há marinheiros fiéis

PRIVILÉGIO DO MAR

Neste terraço mediocremente confortável,
bebemos cerveja e olhamos o mar.
Sabemos que nada nos acontecerá.

O edifício é sólido e o mundo também.

Sabemos que cada edifício abriga mil corpos
labutando em mil compartimentos iguais.
Às vezes, alguns se inserem fatigados no elevador
e vêm cá em cima respirar a brisa do oceano,
o que é privilégio dos edifícios.

O mundo é mesmo de cimento armado.

Certamente, se houvesse um cruzador louco,
fundeado na baía em frente da cidade,
a vida seria incerta.. . improvável. . .
Mas nas águas tranqüilas só há marinheiros fiéis.
Como a esquadra é cordial!

Podemos beber honradamente nossa cerveja.
(Carlos Drummond de Andrade)


As coisas sérias da vida tem passado por mim de um modo tão fugaz, num tilintar de olhos e quando paro pra pensar, passou ou já está prestes a passar, aí fica esse lugarzinho morno e a saudade dos abraços omissos e da felicidade trancada; tem sempre uma lembrança barata no meio do caminho; 1, 2, 5 reais, era tudo tão pouco, pelo menos é do pouco que me recordo.